Domingo, 1 de Janeiro de 1978
o Prefácio do Livro...

 

 


Miguel Salazar, o caricaturista vimaranense

"Há pessoas e Pessoas e, nesta paisagem humana à beira-mar espraiada, há criatividades que se impõem, e pessoas que merecem destaque. Um desses Pessoa já dizia que “Todas as cartas de amor são /Ridículas. /Não seriam cartas de amor se não fossem /Ridículas. /…/ Mas, afinal, / Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são /Ridículas.”

Todo o prefácio é uma “carta de amor” porque se assim não fosse, o prefaciador não seria convidado. A sua missão não é dizer coisas ridículas, mas mesmo que as diga, o importante é a obra do artista que fala por si, sendo as palavras apenas penachos de ornamentação

Assim, o que poderei escrever nesta “carta de amor”? Personagem de múltiplos braços laborais, tem numa das mãos a arma, da ironia; na outra, o lápis, dos exageros caricaturais; noutra o bisturi, satírico, para além de todos aqueles (a)braços da amizade, família, companheirismo e muitos outros das vivências do quotidiano. Claro que tudo isto não passa de figuras de retórica, porque nem todo o médico é cirurgião, embora a função da sátira seja dissecar a anatomia da realidade; nem todo o militar faz carreira de tiro, mas a ironia dispara farpas certeiras e já o lápis, mesmo quando digital, pode fazer caricaturas satíricas, irónicas ou, simplesmente, humorísticas.

Conheci o caricaturista Miguel, em 1990, quando produzi para o jornal “A Bola”, um concurso destinado a encontrar um sucessor do Mestre Francisco Zambujal para aquele periódico. Um dos galardoados, com uma Menção Honrosa, foi precisamente este jovem, o qual passou a ser cúmplice em múltiplos salões de caricatura e exposições temáticas. Posteriormente, conheci o médico Salazar quando a utopia nos uniu num projecto, inglório, de levar o humor ao Hospital Pedro Hispano. Só mais tarde, tomei conhecimento da carreira militar do Miguel Salazar. Três facetas distintas, numa só encarnação, que podem parecer díspares mas que, no final, todas se conjugam numa personalidade de um ser íntegro, de grande generosidade, de amizade e criatividade, onde a caricatura não é mais que um raio de sol, uma fuga ao quotidiano cinzento deste país de tristes resignados, no fado fatalista da alma lusitana.

Miguel Salazar, que é conterrâneo de Portugal, nato em Guimarães, no ano de 1962, tem no seu gene a aptidão para as artes. Nascer com jeito para o desenho, para as artes, é já um dom, mas caricaturista não é qualquer artista que o consegue ser. Tal como o humorismo é um sétimo sentido muito especial que, podendo ser desenvolvido, burilado, é algo inato, só é caricaturista quem nasce com essa chispa divina. Os Mestres-escola corrigiram-lhe uma linha torta, um traço para além do limite, mas a irreverência da linha já ele a tinha na alma, germinando com a ajuda da leitura da “bíblia”.

Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes mas, durante os anos 60/70, o jornal “A Bola” era referenciada como a “bíblia”, não só porque era o principal jornal desportivo, centro das preocupações gerais da sociedade de então, proibida de pensar mais além, como também era um exemplo da língua portuguesa burilada nos dribles, fintas e “off-sides” da sintaxe, e local onde trabalhava o maior desenhador de humor desportivo, um modelo que influenciou várias gerações – Francisco Zambujal. Não é preciso Miguel Salazar dizer que o seu maior ídolo é este artista, porque demonstra no seu trabalho que é um excelente discípulo desta escola gráfica.

Raros foram os momentos que, em Portugal, se desenvolveram escolas gráficas ligadas à caricatura, já que, contrariando a tradição noutros países, houve sempre uma certa tentativa de cada um ter o seu próprio estilo, fugindo a escolas, academismos gráficos. Só que a influência de mestres como Raphael Bordallo Pinheiro e depois de Francisco Zambujal (uma variante do traço bordaliano) fizeram as excepções à regra, dando continuidade a uma tradição bem nacional.

Naturalmente, Miguel Salazar bebeu, desfrutou de todas aquelas páginas que, semanalmente, devorava no jornal desportivo, procurando humildemente copiar os traços até poder começar a voar sozinho e fazer as suas próprias descobertas. A data de 1978 é a marca que o artista apresenta como sendo a sua verdadeira revelação. Desde aí, nunca mais deixou de crescer, de amadurecer o seu magnífico traço caricatural.

Paralelamente ao curso de medicina, exercício da carreira médica complementada posteriormente com a patente de médico militar, vamos encontrar a sua actividade de caricaturista. Para além das paredes dos amigos, das caricaturas para livros de Curso, a sua obra está espalhada por uma mão cheia de periódicos, ou no espaço cibernético com o Blog “ÁLB’oon” onde, para além da sátira semanal ao seu Vitória de Guimarães de coração, está toda a outra obra que realizou desde 1978. Aqui se pode apreciar, não só o crescimento como artista, a evolução e amadurecimento do seu traço, como a excelência da sua obra, do seu fino humor, com um pouco de ironia e sátira, neste campo minado e perigoso, como é o campo desportivo. Não é fácil sobreviver entre estes fundamentalismos exacerbados, tão explosivos como os religiosos, já que o clubismo é uma religião, quando não uma doença, e Miguel Salazar sabe tratar da saúde com o estetoscópio social numa mão, e, na outra, a arma irreverente da caricatura.

Se o seu traço provém do naturalismo bordaliano, modernizado por Zambujal, hoje já se pode afirmar que conquistou o direito a dizer que tem um traço próprio, inconfundível no panorama nacional da caricatura. É sem dúvida um “Vimaranense ilustre” que se destaca entre os seus pares nesse “Álb’oon de Glórias”

Esqueçam entretanto o que escrevi, porque o importante é a obra que se segue. Desfrutem-na porque a caricatura não é apenas uma arte do olhar, mas de se saborear com todos os sentidos, incluindo o sétimo…"

                                                                      Osvaldo Macedo de Sousa

 

 

Biografia

Osvaldo Macedo de Sousa

Natural do Porto (1954), licenciou-se em História pela Faculdade de Letras de Lisboa.

Produtor Cultural e Historiador no campo do Humor Gráfico, organizador de mais de três centenas de Espectáculos, Conferências, Festas da Caricatura, Exposições por todo o país (inclusivé Macau), e ainda em Espanha, França, Alemanha, Croácia, Dinamarca, Brasil, Costa Rica, Suíça, Turquia e Polónia.

Autor de críticas de arte, crónicas, entrevistas e artigos de fundo no âmbito cultural. Tem trabalhos publicados em jornais e revistas tais como Diário de Notícias, O Dia, Jornal de Letras, Gazeta de Artes e Letras, Semanário, O Europeu, Heraldo, O Tempo, Diário Popular, O Primeiro de Janeiro, O Trevim, Jornal de Sintra, Região de Leiria, O Artista, Artes Plásticas, Artes e Leilões, São Carlos, História...

Coordenador do Suplemento Humorístico "Bronkit" do jornal O Trevim (de 2000 a 2004, e segunda série iniciada em 2009); editor do nº especial do "Sempre Fixe por Timor" (Outubro 1999, Agosto 2001).

Director da Galeria Stuart (1984/85) e da Casa do Humor em Lisboa (1989/90).

Comissário das Comemorações do Centenário do Nascimento de Stuart Carvalhais em Vila Real (1987), do Centenário do Nascimento de Christano Cruz em Leiria (1992), do 2º Centenário do Teatro de S. Carlos (1992), da Lisboa’94 – Capital Europeia da Cultura, e da Exposição “Mário Soares - 20 Anos de Democracia Satírica” para a Presidência da República (Palácio de Belém - Lisboa e Macau) (1995).

Comissário Nacional das Comemorações dos 150 Anos da Caricatura em Portugal (1997), do AmadoraCartoon no Festival Internacional de BD da Amadora (desde 1999), do cartoon no Festival MouraBD (desde 1995), da Representação Portuguesa na Bienal de Caricatura de Ourense (desde 1998), e de exposições na Bienal de Humor de Lleida – Humorália (em 2003 e 2005).

Coordenador da Humorgrafe, produtora de eventos de humor gráfico em Portugal (com mais de 300 iniciativas produzidas).

Director do Salão Nacional Humor de Imprensa (de 1987 a 2006), do Salão Livre de Humor Nacional (de 1998 a 2003), do Salão Luso-Galaico de Caricatura de Vila Real (desde 1997), do Festival Internacional de Humor de Praia de Espinho (em 2000), da Bienal de Humor Raiano – Idanha-a-Nova (de 2002 e 04), e da Bienal de Humor Luiz d’Oliveira Guimarães – Penela (desde 2008).

Produtor de mais de três centenas de livros, entre os quais duas dezenas com estudos sobre o tema, destacando-se: “Crónicas d’um Stuart”, “João Abel Manta – Gráfica”, "Fantasia Humorística de Roberto Santos", “Do Humor Da Caricatura”, “Caricatura Politica em Portugal”, “Baltazar, a Vida num traço”, “Sampaio, repórter com H”, “Manuel Vieira", “20 Anos de Democracia Satírica - Mário Soares visto por Caricaturistas”, “Teixeira Cabral, a Caricatura síntese", “150 Anos da Caricatura em Portugal”, “Iconografias da Censura na Caricatura Portuguesa”, “Carlos Alves Um Humor Angolano", “Manuel Monterroso, Um estetoscópio do Humor”, “Água no Humor”, “Britor”, “Comunicar com Humor”, “Humoristas Alentejanos”, “Dos Humoristas Portugueses”, “Humor Militar - José Brusco Junior”, "Humor Árabe", "Luíz Filipe - Um pioneiro do Modernismo" (em parceria com Joao Alpuim Botelho), "Abril no Humor", "Amarelhe O Desretrato da Máscara", "O Modernismo pel'O Humorismo", "Martinez, Humor em Retrospectiva", "Humor na Arte e Dinheiro", "Humor Lusófono", “O Bobo”, “Francisco Zambujal – O Mestre da Caricatura Desportiva”, “Humor Negro”, "Agustin Sciammarella - Caricaturas do séc. XX", “A Luta dos Trabalhadores pelo Humor”, "Humores ao fado e à Guitarra" (Português e Inglês), “João Benamor”, “Caricaturas Crónicas”, “Nas Garras Felinas Da Sátira”, “Esse ser Comediante”, “Rock in Caricatura”, “Vozes Líricas do séc. XX”, “A Mulher no Cartoon” (Português e Inglês), “O Cartoon e o início do séc. XXI” (Português e Inglês), “Luis d’Oliveira Guimarães – O Espírito de uma Época”,”Historia del Humor gráfico en Portugal” (Español), "HISTÓRIA da arte DA CARICATURA de imprensa EM PORTUGAL" (5 volumes), "Francisco Zambujal - O Homem, o Farense, o Pedagogo, o Mestre da Caricatura", "O Teatro Segundo Luiz d'Oliveira Guimarães, As Caricaturas da Primeira República"...

Homenageado no Moura BD (1998) com o "Balanito Especial", pelo GICAV (1999) com o Prémio Anim'Arte 99 (Especial GICAV), e com o "Óscar da Caricatura", em 2006, por um grupo de caricaturistas no âmbito dos 25 anos de actividade.



publicado por Miguel Salazar às 16:05
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