Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014
A liteira, o literato e os liteireiros...
Muito mais do que apenas uma mera aliteração, "A liteira, o literato e os liteireiros" é a triste realidade do futebol português. Em boa verdade é mais ainda - é a realidade de todo o Desporto nacional...

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A liteira escarlate segue o seu caminho, com toda a serenidade, completada que está a 10ª etapa das 34 que a corrida tem. Segundo a Tradição, velha de quase um século, o privilegiado deve seguir sempre confortavelmente instalado na sua liteira, de modo a ser poupado ao esforço de uma corrida feita a pé, tal como está reservado aos restantes 17 contendores. Dizem eles que é um desígnio dos Deuses...
 
Em cima dessa liteira escarlate segue o literato. E como é letrado o nosso literato! Apesar de muitos dos seus antecessores terem sido indivíduos já com um apreciável nível cultural, não há memória de algum dia ter havido alguém como ele, com tão elevado grau de literacia. E o facto de um dia ter reconhecido humildemente que não era Eça de Queirós, apenas deverá ser interpretado como mais uma prova irrefutável da sua imensa modéstia. Poupado pela liteira aos esforços da corrida, ao literato sobra-lhe assim o tempo suficiente para poder fruir da pintura da sua amiga Paula Rego. Mas sobra-lhe também o tempo e a disposição necessários para que o seu talento possa fluir na preparação dos mais belos discursos e das mais eloquentes intervenções, que assim se constituem como prosas de incomparável valor literário.
 
Mas a liteira escarlate não anda sozinha, e por isso existem os liteireiros.  Liteireiros que são muitos... imensos... quase incontáveis. São tantos que, semana após semana, se degladiam entre si pelo privilégio de carregar liteira e literato. É uma luta fratricida, entre carneiros do mesmo rebanho. Mas o mais difícil da sua tarefa nem é conquistarem esse direito de carregar a liteira escarlate e o seu literato. O mais difícil é serem capazes de levar a cabo essa missão com mãos que nunca estão completamente livres. Mãos ocupadas com bandeirinhas ou com cartões de duas cores, com microfones ou com blocos de apontamentos pasquineiros, com câmaras de televisão ou com máquinas fotográficas, ou ainda com pilhas de relatórios de observadores ou com resmas de castigos disciplinares. E depois há os apitos que, estando na boca, não facilitam a respiração de quem despende tamanho esforço. A verdade é que, com maior ou menor discrição, e com maiores ou menores dificuldades, os diligentes liteireiros conseguem sempre cumprir a sua missão... e a preceito. Entre todos eles, uma característica em comum: o facto de nenhum ter a boca ou as mãos suficientemente limpas para poder fazer outra coisa na vida que não seja carregar liteiras e iliteratos...
 

José Rialtoblogue DEPOIS FALAMOS



publicado por Miguel Salazar às 01:08
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