Quarta-feira, 4 de Novembro de 2015
As origens da Sociedade Martins-Sarmento...

 

A CONSTRUCÇÃO

SOCIEDADE MARTINS-SARMENTO 

20151024 Construcção Sociedade Martins-Sarmento.

da esquerda para a direita, os cinco principaes constructores d'esta mui illustre instituição vimaranense:

Avelino Germano, Avelino da Silva Guimarães, Domingos Ferreira Guimarães, Domingos Leite de Castro e José Sampaio

 

A Sociedade Martins Sarmento, utopia realizada

Dois advogados que terçaram armas contra a tirania de um juiz impertinente, Seco de nome, um deles figura de proa, ao lado de Antero de Quental, da célebre Sociedade do Raio que em Coimbra erguera a voz contra a Universidade anquilosada e retrógrada, dois cidadãos que comungavam dos ideais dos liberais de 1820 e da Revolução de Setembro de 1836, um republicano em terra em que quase os não havia. Cinco idealistas que, se não alimentavam a pretensão transcendente de mudarem o Mundo, amavam a terra que os vira nascer e não se conformavam com o atraso com que a modernidade ali tardava a chegar. Guimarães tem um imensa dívida de gratidão para com os iniciadores da Sociedade Martins Sarmento, instituição que seria a pedra de toque de um processo de transformação de mentalidades, de modernização e de construção e aprofundamento dos elementos mais marcantes da identidade vimaranense.

No início da década de 1880 Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento, ainda sem completar 50 anos de idade, sobressaía em Guimarães como uma figura tutelar. Por aqueles dias, como escreveu mais tarde Domingos Leite de Castro:

Guimarães era uma cidade moribunda com festas a cantochão pouco elegante; Sarmento a única individualidade moderna, superior, com decidida influência nos costumes. As suas polémicas jornalísticas, as questões de caçadores 7 e do Juiz Seco, de envolta com a lenda dos seus versos e do seu feitio romântico, criaram-lhe um grande nome entre a gente moça, a que veio juntar-se o prestígio dos seus trabalhos científicos. Por fim, as conferências arqueológicas, nacionais e estrangeiras, da Citânia, deram a Guimarães o seu primeiro momento de orgulho, o orgulho de se sentir uma parte do mundo Civilizado. Este momento foi tudo, e quem não entender isto, não compreenderá a Sociedade Martins Sarmento.

No princípio de 1880 Francisco Martins Sarmento foi o anfitrião dos participantes no Congresso Antropológico de Lisboa, que vieram ao velho Minho conhecer a Citânia que o estudioso vimaranense, com os seus textos e as suas fotografias, tinha revelado ao Mundo. Entre eles, destacavam-se alguns dos mais proeminentes cientistas europeus do seu tempo, alguns dos quais políticos muito influentes nos seus países, como Rudolf Wirchow, da Alemanha, e Henri Martin, da França. O reconhecimento da importância das descobertas da Citânia de Briteiros para a compreensão da história da Europa e o impacto do conhecimento da erudição do seu descobridor, foram de tal ordem que, por intervenção de H. Martin, Francisco Martins Sarmento seria, pouco tempo depois da expedição à Citânia, agraciado pelo Estado francês com o título de Cavaleiro da Legião de Honra.

 

Nascimento de uma ideia

Por aqueles dias, existiam em Guimarães vários clubes e associações que funcionavam como locais de convívio e de lazer. A Assembleia de Guimarães, criada no final da década de 1850, era uma dessas agremiações. Tinha por fins estatutários “proporcionar aos associados uma diversão decorosa e civilizadora por meio da convivência quotidiana, leitura, jogo lícito, bailes ou simples reuniões de famílias”. No início de 1881 funcionava na rua da Rainha, no palacete dos Lobos Machados, hoje sede da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, contando com sete dezenas de sócios, que se reuniam nas suas salas para disputarem uma partida de bilhar, jogos de tabuleiro ou de cartas, ou para lerem os jornais da véspera ou do dia.

Quatro amigos à volta de uma mesa, passando os olhos pelas notícias, entre dois dedos de conversa. Houve tempos em que era assim que nasciam e germinavam ideias e projectos. Assim começou a Sociedade Martins Sarmento.

Certo dia, que quatro amigos, Avelino Germano, Avelino da Silva Guimarães, cónego José Bento Agra e Manuel de Freitas Aguiar, que matavam o tempo lendo os jornais e conversando amenidades na sala de leitura da Assembleia de Guimarães, tomaram conhecimento das notícias dos jornais que davam conta da condecoração de Francisco Martins Sarmento pelo Governo da República da França, em homenagem aos seus estudos arqueológicos e históricos. Logo ali redigiram uma mensagem de congratulação, que fizeram chegar ao descobridor da Citânia de Briteiros, embora percebessem que aquilo era fraco tributo de reconhecimento. Francisco Martins Sarmento era merecedor de uma homenagem “mais extensa” na sua terra. A ideia ficaria no ar, sem que se conseguisse acertar com a natureza que revestiria o tributo: um banquete, um retrato, um fundo para um prémio, uma medalha, um monumento.

Correram alguns meses sem que se encontrasse a forma com que se materializaria a homenagem ao mais ilustre dos vimaranenses do seu tempo. Até porque havia um obstáculo dificilmente transponível: a personalidade peculiar do homenageado, por natureza reservado e avesso a distinções públicas (entre outras, era bem conhecida a história da sua rejeição da condecoração com o título de oficial da Ordem de S. Tiago e a ironia com que respondia aos que lhe perguntavam o motivo da recusa: que tal condecoração já não cabia no cofre dos seus diplomas). Até que, um dia, alguém avançou com a sugestão da criação de uma sociedade literária, “uma espécie de academia de estudiosos, que influísse praticamente para o progresso de Guimarães sob todas as formas”. Esta sugestão seria rejeitada pelos envolvidos, por se lhes afigurar como pretensiosa: nem eles se presumiam literatos, nem Sarmento aceitaria ter o seu nome associado a uma associação com tais propósitos. No entanto, a sugestão evoluiria rapidamente, adquirindo novos contornos: em vez de uma agremiação onde se discutiam amenidades da literatura e da ciência, começou a germinar o projecto de uma sociedade de instrução, inspirada em instituições congéneres que nasciam e frutificavam em países onde a modernidade chegara mais cedo, como a Inglaterra, a França, a Alemanha ou os Estados Unidos, com o propósito de prover as classes populares com os rudimentos de instrução que as habilitasse a singrar num Mundo em mutação acelerada. Era possível, percebia-se, fundar um organismo que cumprisse o propósito de homenagem pública de Sarmento e que, em simultâneo, respondesse a uma necessidade real de Guimarães, onde a carência de estabelecimentos de ensino era uma evidência.

De facto, por aquela altura, Guimarães apresentava um quadro desolador no plano da instrução literária, artística e profissional, que Avelino descreveria um dia, ao recordar os dias iniciais da Sociedade Martins Sarmento:

Algumas escolas de instrução primária elementar colocadas em maus edifícios, parte delas regidas por maus professores; algumas centenas de volumes, dados à câmara municipal dos duplicados da biblioteca de Braga, servindo de repasto às aranhas numa saleta do extinto convento de S. Domingos; uma aula de latim suprimida, e o professor, que fora óptimo, jubilado; uma aula de francês, geometria, e escrituração comercial, por prover há largos anos: eis o que havia para pecúlio de instrução pública.

E acrescentava uma nota depressiva sobre a realidade de Guimarães, uma terra que se orgulhava do seu passado glorioso, mas em que o presente não era mais do que um pálido reflexo de antigas grandezas:

Decerto que Guimarães guardava as relíquias de antiga nobreza; decerto que buscava retemperar o ânimo heróico na contemplação do seu castelo arruinado; decerto que alimentava o seu orgulho do estudo retrospectivo das passadas grandezas, na investigação histórica da antiga universidade da Costa, na memória das avultadas bibliotecas dos conventos extintos, que Braga nos herdou...; mas de tudo isto não podiam formar-se elementos que melhorassem a sua instrução pública.

Os iniciadores da Sociedade Martins Sarmento foram Avelino Germano da Costa Freitas, médico, Avelino da Silva Guimarães e José da Cunha Sampaio, advogados, Domingos Leite de Castro e Domingos Ferreira Júnior. O mais velho de entre eles, José Sampaio, contava quarenta anos de idade. O mais novo, Domingos Leite de Castro ficava-se pelos 35. Seria ele que, muitos anos mais tarde, ao delinear a biografia de José Sampaio, traçaria o perfil do grupo dos fundadores da SMS:

Foram cinco os seus membros, como todos sabem, e dir-se-ia mesmo que José Sampaio não podia viver ou trabalhar em comum senão com esse número. Fútil observação, mas curiosa coincidência! Foram cinco os membros do conselho supremo da Sociedade do Raio, cinco os fundadores da Justiça de Guimarães cinco os da nossa Sociedade, cinco ainda os membros da família que constituiu, em que viveu e amou. Foram Domingos Ferreira, o primeiro que a sepultura tragou seis anos depois, um dos caracteres mais naturalmente delicados e dedicados, que havia em Guimarães e a quem nem sempre toda a justiça foi feita, progressista enragé; Avelino da Silva que vinha do 19 de maio através das lutas do Seco, então sem cor definida; Avelino Germano, grande republicano numa terra em que os não havia; e o último, que também bordejava pelo progressismo no bom tempo das ilusões.

 

A “Loja Liberdade”

Num meio estruturalmente conservador, como era a Guimarães daqueles dias, as movimentações deste grupo de cidadãos, rodeadas do secretismo dos conspiradores, deram origem a rumores que deixavam transparecer suspeitas de envolvimento em maquinação política. Durante meses, os cinco amigos trabalharam misteriosamente como uma nova loja Liberdade, escreveria Domingos Leite de Castro. As mais das vezes, as sessões de trabalho aconteceram na casa de Avelino Guimarães, que então vivia no Toural, seguramente o lugar da cidade menos propício a encontros discretos. Todos eles tinham consciência de que haveria muito a fazer e muitos obstáculos a remover do caminho. Traçaram um plano de trabalho, redigiram um projecto de estatutos.

Com o projecto delineado, ainda havia que transpor um obstáculo: obter a concordância de Sarmento para que o seu nome passasse a figurar na designação da instituição que haviam congeminado. Conta Avelino Guimarães:

Havia porém que vencer outra dificuldade, muito grave, antes que a empresa se anunciasse aos amigos de Sarmento, e ao público vimaranense: a conquista do seu nome.

A origem das nossas lucubrações fora o desejo duma demonstração colectiva e pública em honra, de um homem, que respeitávamos como sábio, e estimávamos como amigos dedicados; mas previmos uma luta para a conquista deste nome ilustre para brasão da Sociedade.

Prevenindo as respostas, às objecções que calculámos, formulando argumentos para subjugar a prevista reacção com que a provada modéstia de Francisco Sarmento havia de responder ao nosso empenho, com o acanhamento de quem tem a convicção de que vai violentar a alma de um homem digníssimo, mas com a resolução de quem se dispõe a uma conquista, passámos, como nosso Rubicão, o portal do palacete de Francisco Sarmento.

Houve a luta prevista, mas contra a nossa previsão não pudemos conseguir que o pedido, que os nossos argumentos valessem para que nesta primeira entrevista ficasse consumada a conquista.

Na primeira visita que os cinco iniciadores fizeram ao palacete do largo do Carmo para apresentarem o seu projecto, Sarmento acolheu com entusiasmo a ideia da criação de uma sociedade de instrução que “vinha preencher uma vasta lacuna nas instituições de Guimarães, e colocá-la na avançada do novo movimento nacional”, mas mostrou-se renitente quanto à sua designação, tentando convencer a comissão iniciadora a dar à sociedade projectada outro título, em que não figurasse o seu nome. Nada demoveu aqueles seus cinco amigos. Ainda passariam alguns dias até que o arqueólogo da Citânia acabasse por baixar as suas resistências. Os iniciadores tinham alcançado o seu propósito, a nova instituição ia mesmo chamar-se Sociedade Martins Sarmento. Mas, por imposição do homenageado, ainda tiveram que eliminar do projecto de estatutos algumas referências elogiosas ao homenageado, que entendiam justas e merecidas, mas que Sarmento, na sua proverbial aversão a rapapés, declinou.

 

20 de Novembro de 1881

Com o projecto de estatutos pronto, redigido o relatório que justificava a criação da instituição e obtido o assentimento de Francisco Martins Sarmento, era chegado o tempo de revelar a Guimarães o objecto da conspiração em que andavam envolvidos cinco das mais respeitadas figuras da cidade. A comissão promotora marcou uma reunião, para a qual convidou um conjunto alargado de cidadãos, que teria lugar numa das salas da Assembleia Vimaranense, o mesmo local onde, meses antes, nascera a ideia da homenagem a Martins Sarmento. Foi aí que a Sociedade Martins Sarmento foi oficialmente declarada instalada, ao final da manhã do dia 20 de Novembro de 1881.

À reunião compareceram quarenta cidadãos vimaranenses. A abrir a sessão, José Sampaio leu, em nome dos cinco iniciadores, o relatório em que justificavam a sua proposta de criação de “uma instituição, que possa viver sem limitações de tempo, que seja como que um monumento recordativo dos altos dotes intelectuais de um homem respeitável, e que aufira elementos de duração indeterminada pelos benefícios sociais que há-de prestar sob o influxo do nome do nosso ilustre patrício: para este duplo fim nenhuma outra nos pareceu mais ajustada que uma associação de instrução, cuja necessidade de há muito sentíamos, criada em condições modestas para que a tentativa não intimide por ostentosa, mas contendo os gérmens do mais largo e proveitoso desenvolvimento”.

Na manhã daquele domingo, os participantes ouviram José Sampaio explicar porque é que a homenagem ao mais ilustre dos cidadãos de Guimarães que propunham não se conformava aos modelos correntes daquele género de homenagens, assumindo uma forma incomum:

Poderia erigir-se um monumento em granito ou mármore, abrindo-lhe na base inscrições comemorativas; mas não será um anacronismo que neste século de actividade intelectual prefiramos a inscrição à associação, o mármore a um pensamento em actividade constante, a inércia de uma coluna ao vivido movimento de uma instituição, que deve prosperar se nunca lhe falecer a vossa protecção e a dos nossos conterrâneos?

O monumento pode esboroar-se e desaparecer no fragor das tempestades, ou no vandalismo das guerras; a instituição, se cria raízes, se preenche uma necessidade real, se representa um progresso na educação social, vive além das convulsões, adquire condições de perpetuidade, permanece enquanto não está satisfeito o seu fim, enquanto se não torna inútil por novos progressos, vivendo ainda assim na memória dos que lerem as páginas da sua história.

Os participantes na reunião, sem ocultarem a surpresa inicial ao perceberem a dimensão do que lhes era apresentado, acolheram com entusiasmo o projecto que lhes foi apresentado, sendo unânimes na aprovação dos estatutos. Nascia a Sociedade Martins Sarmento, que ergueria o pendão de Promotora da Instrução Popular no Concelho de Guimarães. Os cinco iniciadores foram incumbidos das tarefas de organização da nova instituição, até à sua constituição legal. A primeira missão que desempenharam nessas funções foi a de comunicarem ao homenageado o entusiasmo com que a assembleia acolhera a proposta da criação da nova instituição e a consideração em que era tido na terra que lhe servira de berço e cujo nome elevara com os seus trabalhos científicos e com o prestígio e reconhecimento que conquistara na Europa culta.

Nos seus primeiros tempos, enquanto não encontrava instalações apropriadas aos seus fins, a Sociedade funcionou num salão do palacete do Toural, disponibilizado pelo seu proprietário, Domingos Martins Fernandes. Foi aí que, no dia 29 de Fevereiro de 1882, já com os estatutos aprovados pelo governador civil do distrito, se realizou a sua primeira Assembleia Geral, que proclamaria Francisco Martins Sarmento como o seu primeiro sócio honorário e elegeria uma direcção provisória, constituída pelos cinco iniciadores, com o reforço de António José da Silva Basto e Domingos de Castro Meireles.

Ao noticiar a primeira Assembleia Geral, na sua edição de 1 de Fevereiro de 1882, escreviam-se no jornal Religião e Pátria palavras premonitórias:

Não tarda que ouçamos o primeiro silvo da locomotiva e confiamos que os resultados desta agremiação se hão-de sentir em benefício do progresso moral desta cidade em precedência daquela conquista da moderna civilização.

 

A utopia feita realidade

Nos dias que se seguiram, a Sociedade Martins Sarmento mostrava ao que vinha. Numa cidade vetusta e conservadora, quase parada no tempo e habitada por gente que passava a vida a lamuriar-se do esquecimento a que os poderes públicos a votavam, o dinamismo dos directores da Sociedade teve o efeito de uma pedrada no charco. Instalava-se uma nova atitude em Guimarães, que replicava o exemplo do homem que dera o nome à nova instituição. Guimarães deixava de se sujeitar à condição de pobre e agradecida a que estava condenada havia muitas décadas, concentrando energias para tomar em mãos o seu futuro e exigir dos poderes públicos aquilo que sentia ser seu por direito próprio.

Os primeiros meses de funcionamento da Sociedade Martins Sarmento foram marcados por uma actividade quase febril. A direcção, presidida José Sampaio, avançou com um enorme conjunto de propostas que visavam satisfazer necessidades identificadas na cidade e no concelho, e que se concretizariam nos tempos que se seguiram, em parte arroladas por Avelino Guimarães no texto em que escreve a crónica desses dias iniciais:

Desde 30 de Janeiro até 9 de Março de 1882 os diversos membros da direcção tinham estudado e apresentado em diversas sessões importantes propostas de promoção de instrução e outras de indispensável realização. Foram as principais as seguintes: para a criação de uma escola de adultos pelo secretário Domingos Ferreira Júnior; para que a Sociedade despendesse até à décima parte da sua receita em subsídios a alunos pobres, pelo dr. José da Cunha Sampaio; para a organização de uma exposição ornamental, arqueológica e industrial, por Domingos Leite Castro, para se pedir o provimento da cadeira de francês, por Avelino Germano; para a criação duma biblioteca popular e pública; para o estabelecimento de instituições profissionais, começando por um curso nocturno de desenho, e para a organização de comissões central e especiais por classes de indústria para a realização de um inquérito de todas as indústrias do concelho, por Avelino Guimarães.

Nos primeiros passos da sociedade recém-nascida, os seus directores tiveram que conviver com perplexidades, más-vontades e críticas, algumas acerbas. Naqueles tempos iniciais, houve quem classificasse a Sociedade Martins Sarmento como uma utopia desvairada.

Houve, além das críticas, augúrios da próxima dissolução da sociedade; houve quem segredasse — estão doidos! — houve ainda quem dissesse a meia voz, conhecidas as propostas para cursos nocturnos de desenho e de francês, para inquérito industrial, etc.- querem a desordem social, a comuna, Alcoy, a mão negra.

Mas as críticas, algumas com contornos de chicana política, a incredulidade de uns quantos, as manifestações de condolências amigos, não trouxeram desânimo aos homens da SMS, antes pelo contrário, deram um suplemento de ânimo à sua vontade de levarem a bom porto um projecto em que se envolveram com inteligência, dedicação, entusiasmo e altruísmo.

Em 1882, o dia 9 de Março, data em que se assinala o aniversário do nascimento do patrono da Sociedade Martins Sarmento, ficaria para os anais como a data oficial da inauguração da instituição. Foi um momento de celebração pública e de afirmação do potencial e da capacidade de realização de uma instituição que nasceu movida pela energia do amor à terra e do apego ao seu progresso. Por aqueles dias, Guimarães dava os primeiros passos no sentido da modernidade.

Dois dias depois daquele primeiro solene 9 de Março da história da SMS, Francisco Martins Sarmento, numa carta publicada no jornal Religião e Pátria, agradeceria aos que o homenagearam, em especial àqueles a quem a fortuna recusa os instrumentos da cultura intelectual, dando conta da sua vontade de os abraçar como fanáticos correligionários, que vitoriavam as duas grandes ideias que têm em mim um fanático religionário — a justiça e a ciência. E terminava com um voto:

Que este entusiasmo não arrefeça; que cada um na sua especialidade cumpra com os deveres que este culto lhe impõe, e dentro de alguns anos nós todos havemos de sentir-nos imensamente mais fortes e mais satisfeitos de nós mesmos.

A Sociedade Martins Sarmento realizou o destino que lhe traçaram os seus fundadores. Nasceu como Promotora da Instrução Popular e cumpriu o seu desígnio: abraçando as causas da formação profissional, incluindo a dirigida para o sexo feminino, do ensino artístico, da educação de adultos. Da SMS partiram acções de alfabetização, nomeadamente no meio rural, por obra das Escolas Móveis promovidas por esta instituição. A Escola Industrial Francisco de Holanda e o Liceu de Guimarães têm a sua origem estreitamente vinculada à acção da Sociedade.

Mas a actividade dos pioneiros da SMS foi para além da promoção da instrução popular. Desde cedo desenvolveram outras dimensões da produção e difusão da cultura, criando um Museu Arqueológico, abrindo as portas da Biblioteca Pública, lançando a Revista de Guimarães.

A Exposição Industrial de Guimarães de 1884, que coincidiu com a chegada do comboio a Guimarães, marcaria um ponto de viragem no desenvolvimento económico e na industrialização desta região. Foi uma das primeiras iniciativas da Sociedade Martins Sarmento, que teve como alma mater um dos seus sócios mais inteligentes e discretos: Alberto Sampaio.

20151104 Mais Guimarães.jpg

 

Daí para a frente, a história de Guimarães e da sua projecção cultural não pode ser escrita ignorando a Sociedade Martins Sarmento. Num tempo como o de hoje, em que muitos teimam em menosprezar a dedicação do amador, do que se entrega com generosidade e abnegação à coisa amada, sem procurar recompensas materiais, muito ganharíamos se nos revíssemos no exemplo dos iniciadores e dos continuadores da mais paradigmática das instituições vimaranenses, de todos os que têm dado corpo e vida a uma casa sem par, fruto do modo muito particular como homens e mulheres de sucessivas gerações têm sabido ser amadores da sua terra e das suas gentes.

 

António Amaro das Neves

 

(publicado na revista Mais Guimarães - pág.32-36)



publicado por Miguel Salazar às 15:59
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